quarta-feira, 5 de junho de 2013

Dave Matthews band and Warren Haynes - Cortez the killer

Para alegrar a leitura do presente blog, deixo-vos aqui uma música que, na minha opinião, retrata, perfeitamente, o tema desta página.
Espero que gostem.

Contexto



O século XVI, foi um século que se perfilou como sendo um dos séculos mais activos da História da Humanidade. Digo isto porque foi uma altura em que se efectuaram inúmeras mudanças no panorama europeu. Foi uma época onde houve uma constante mudança, onde todos os dias existem novas mudanças, muito por influência do Renascimento1 que, em pleno século XVI grassou na Europa.
É no âmbito destas mudanças que surgiu a conquista do Novo Mundo, descoberto por Cristóvão Colombo no ano de 1496, por parte da Monarquia Hispânica. Segundo Jean Bérenger2, a conquista do Novo Mundo deu-se em três fases, das quais apenas interessa a segunda. Esta segunda fase respeita à chegada ao território Mesoamericano, ou seja ao espaço compreendido entre o México, Guatemala, El Salvador, Belize, Nicarágua, Honduras e Costa Rica, e à conquista do império Azteca, nomeadamente à conquista de Tenochtitlan, levada a cabo por Hernán Cortez.

Biografia Hernán Cortés



Hernán Cortés ou Fernando Cortés3 era um pequeno fidalgo que nasceu na Estremadura Espanhola, por volta do ano de 1485. Aos catorze anos deu entrada na universidade de Salamanca, para cursar direito e latim, contudo veio a regressar à sua terra natal, Medellin, sem concluir os seus estudos.
Até completar dezanove anos trabalhou como escrivão na corte de Valladolid, e no ano de 1504, deixando para trás a Península Ibérica, partiu para o Novo Mundo, em busca de fama e riqueza.
Chegado a Cuba integrou uma missão em busca de ouro, a qual lhe correu de feição e, em reconhecimento, o governador de Cuba, Diego Velázquez, atribui-lhe uma fazenda bem como os respectivos escravos, por forma a que Cortez se pudesse fixar como colono. 
No ano de 1511, Cortés participou numa nova conquista na ilha de Cuba. Em virtude do seu desempenho nesta demanda foi presenteado com o cargo de secretário de Velázquez, e pouco tempo depois foi nomeado como senhor de Santiago de Baracoa. Após esta missão, Cortez decidiu ir residir para a zona de Santiago, no sul da ilha de Cuba, onde acabou por se casar com Catalina Zuárez4.
Hérnan Cortez ficou nesta zona de Cuba até ao ano de 1518. Foi neste ano que Diego Velazquez convidou Cortéz para assumir o comando de uma expedição que tinha como objectivo a busca e a colecta de ouro. Contudo, esta simples demanda em busca de ouro rapidamente se tornou numa conquista de todo o território Azteca, que durará até cerca do ano de 1521.
Após a conquista do México, Cortez passou a ocupar o cargo de Vice rei da “Nueva España”, ocupando este cargo até meados de 1564.
Em 1529, verificou-se o regresso de Cortez à sua pátria, onde se reúne com o Imperador Carlos V, o qual lhe atribuiu o título de marquês del Valle de Oxaca. Em 1530 regressou ao México e ainda concretizou três expedições, todas elas ao largo do Oceano pacífico ou Mar del Sur.
Muitos historiadores acham que foi numa destas expedições que se descobriu a Califórnia. Após estas expedições decidiu voltar para a Península Ibérica, onde permaneceu até à data da sua morte, que ocorreu em 1547.
Cortéz sempre se evidenciou como sendo muito astuto e dotado de uma inteligência acima da média, o que lhe permitiu decidir sempre da forma mais correcta. Aliado a esta astúcia e inteligência junta-se um catolicismo fervoroso. É este sentimento que motiva Cortez a querer converter os indígenas à verdadeira doutrina5, acabando assim com as práticas religiosas que estes detinham, que segundo Cortez eram práticas dignas de um Deus malvado.

Biografia de Carlos V



Carlos V, então somente Carlos, nasceu em 1500, na província de Gand, nos Países Baixos, e era filho de Filipe, o Belo, Duque da Borgonha, senhor da Flandres e Arquiduque da Áustria, e de Joana, a Louca, filha dos Reis Católicos. Tinha como avós paternos o Imperador Maximiliano I e Maria da Borgonha e como avós maternos os já referidos Reis Católicos.
No ano de 1506, Felipe, O Belo, faleceu e Fernando de Aragão iniciou uma regência6 que durou até ao ano de 1516, data da morte do Rei Católico. É portanto nesta altura que Carlos, é coroado, ainda nos Países Baixos, Carlos I rei de Espanha e de todos os territórios  que lhe estão inerentes, ou seja, Países Baixos, Franco Condado, Castela, Aragão, as terras do Novo Mundo, o reino de Nápoles, da Sicília e portos no Norte de África7.
Dois anos depois de chegar a Castela teve de partir para a Alemanha, onde irá ser eleito Imperador, eleição esta que ganha a Francisco I, rei de França. Após esta eleição teve de lidar com as revoltas dos Comuneros em Castela. Como era detentor de um império onde o sol nunca se põe viu-se obrigado a ser um Rei itinerante, uma vez que tinha de viajar por todo o seu território.
Carlos teve ao longo do seu reinado inúmeras vitórias, das quais se destacam a vitória na batalha de Pavia, em 15258, Conquista de Tunes em 1535, vitória de Mühlberg, em 1547, que foi um ataque direccionado à liga protestante alemã e, por último, a conquista de inúmeros territórios em solo Americano. Estas conquistas no Novo Mundo ficaram a dever-se em grande parte a Hérnan Cortez. 
Porém, o seu reinado não foi constituído só por vitórias uma vez que, ao longo do mesmo, sofreu três grandes derrotas, sendo elas: não recuperar a Borgonha à França; não destruir o Império Otomano e não reconstituir a unidade católica na Alemanha.
Depois da morte da sua mulher, a famosa Imperatriz Isabel de Portugal, Carlos viu-se assolado por uma letargia e desilusão enorme, que se traduzirão na abdicação do título de Rei de Espanha em detrimento do seu filho, no ano de 1556, e na renúncia ao cargo de Imperador a favor do seu irmão Fernando, no ano de 1558. Após a abdicação dos seus cargos, retirou-se para a humilde localidade de Yuste, onde fica até ao fim dos seus dias.
Apesar de ter sido um Rei extremamente valoroso no panorama das batalhas e das reformas político administrativas, foi a panóplia de territórios que detinha que lhe deram o poder e a força tão grande que teve.
Assim foi criado o mito de Carlos V, o rei que detinha o “império onde o sol nunca se põe”6.

Carta I



Esta carta é escrita a 10 de Julho de 1519 e é endereçada ao Imperador Carlos V.
Segundo o autor, esta carta contém “…el origen de cómo y cuándo y en qué manera el dicho gobernador comenzó a conquistar la dicha Nueva España…”7 como ponto inicial. É portanto desta forma que se inicia a carta, ou seja o conselho da Rica vila de Vera Cruz começam por contar as expedições que houve até à entrada em cena de Fernando Cortés.
Como é sabido, antes da vitoriosa expedição de Cortez houve duas missões, encabeçadas a primeira por Francisco Hernández de Córdoba e a segunda por Juan de Grijalva, sobrinho de Diego de Velázquez. Ambas as expedições trouxeram ouro e outras riquezas, que era o objectivo ambicionado pelo governador de Cuba. No entanto as quantidade apreendidas não eram as que Velázquez desejava.
Como as duas missões efectuadas não tinham corrido de feição para Velázquez, eis que este se lembra de um fidalgo espanhol que já havia participado em duas outras expedições e havia conseguido muito bons resultados. Deste modo decidiu pedir ajuda ao tal nobre espanhol, ou seja, a Fernando Cortés, que segundo a carta “…era vecino y justicia de la ciudad de Santiago en la dicha isla de Cuba, que a la sazón estaba rico en dineros y tenía ciertos navios suyos propios y era muy bien quisto y tenía muschos amigos en la isla…”8.
Após conversarem, acordaram em criar uma armada que partiria da ilha de Santiago, para as zonas exploradas por Grijalva e Francisco de Córdoba, em busca de riqueza e ouro.
A armada, que era constituída por “…diez carabelas y cuatrocientos hombres de guerra entre los cuales vinieron muchos caballeros e hidalgos y dieciséis de caballo…”9, sendo que um terço era de Diego Velázquez e o resto era de Cortés, partiu em Outubro de 1518, chegando apenas em Fevereiro de 1519  à terra do Yucatán. Ao chegar a terra decidiu não fazer o que lhe havia sido incumbido, pois apercebeu-se da grandeza da terra onde se encontrava e decidiu submete-la a Espanha e aos seus Reis.  O primeiro passo, dado neste sentido, foi desmontar as naus, de modo a evitar que os seus homens fugissem. Imediatamente após, fundou a Rica Villa de la Vera Cruz, dotando-a de tudo o que era necessário para esta estar na legalidade.
De seguida, passa a descrever as expedições efectuadas por Hernán Cortés desde a partida de Cuba até à chegada e formação da Villa Rica de la Vera Cruz, passando pelo que ocorreu em Cozumel, pela batalha de Centla e a chegada a San Juan de Ulúa. Da análise das cartas é possível constatar a astúcia de Cortez, que em vez de entrar em guerra directa com os indígenas preferiu dialogar, na tentativa de chegar a um consenso e convence-los a serem vassalos de Espanha. Nota-se também o catolicismo feroz que caracteriza Cortés, já que em todas as terras a que vai tenta sempre converter as populações, chegando a deixar uma cruz de madeira e ensinando-lhes os ritos principais da religião católica. Não obstante procurar uma via pacífica, verifica-se que o conquistador espanhol não tinha problemas em entrar em guerra com os indígenas10.
Após a descrição destes feitos, há também a intenção de dar a conhecer a cultura indígena, descrevendo então a forma como se vestem, as culturas que cultivam, sendo que o milho é a que mais se destaca. Ou seja, há uma tentativa de retractar a sociedade e a cultura dos locais onde passaram até chegar a Santa Cruz.
Após esta abordagem ao quotidiano indígena vem a descrição da religião e dos hábitos religiosos praticados pelos índios. Estes aspectos merecem atenção e constata-se que há uma certa preocupação perante tais práticas, pois nunca tinham sido vistas11.
Após esta descrição fazem algumas queixas de Diego Velázquez, acusando-o de só se preocupar com o seu enriquecimento e qual a forma mais rápida de o obter. Por outro lado, ao longo desta carta verifica-se um enobrecimento da personagem de Hernán Cortés, que demonstra uma grande capacidade de liderança e apresenta-se como sendo um pragmático, sabendo decidir da melhor forma nas mais diversas e adversas situações.
Acabam a carta com um novo enaltecimento a Cortez, desta feita pedindo ao Imperador Carlos V que o nomeie de “Capitán General y Justicia Mayor”12, legitimando-o assim como Governador da Villa Rica de la Vera Cruz a Cozumel. Após tal pedido faz-se uma inventariação do quinto que pertence ao rei.

Carta II



Esta carta foii outorgada a 30 de Outubro de 1520, desta feita pelo capitão geral Fernando Cortés.
Começa por sintetizar o que trata a presente relación, irá de uma provincia muito rica denominada Culúa, “…en la cual hay muy grandes ciudades y de maravillosos edifícios y de grandes tratos y riquezas…”13, e da sua cidade mais espantosa que é Tenochtitlan. Irá abordar também o senhor desta cidade Moctezuma e a forma como por ele foram recebidos.
No intróito da carta pede desculpa pela demora em responder14, mas justifica-se com a conquista, que lhe tomava muito do seu precioso tempo.
De seguida, dá a notícia de que submeteu, sem dificuldades, a cidade de Cempoal, descrevendo depois o descontentamento que assola os apoiantes de Velázquez e referindo que para evitar abandonos ou fuga por parte dos soldados decidiu queimar  as naus, visto que assim ninguém poderia fugir.
Posteriormente, dá a conhecer da chegada de uma armada espanhola, cujo capitão é Fernando de Garay. Porém, esta passagem é breve, uma vez que não é dada uma grande atenção a esta armada que passou ao largo da costa de Vera Cruz.
Após este episódio com os seus conterrâneos, Cortez continua a narrar quais foram os passos dados por si e pela hoste que o acompanhava. Dá-nos então a conhecer que irá fazer uma jornada com os índios. Para além de a descrever dá conhecimento das cidades que converteu aos Reis espanhóis15.
Foi na província de Caltanmí que lhe deram a conhecer da existência da cidade de Tlaxcala, extremamente poderosa e inimiga de Moctezuma. Então, Cortéz decidiu ir ao encontro desta população. Contudo, quando finalmente se encontrou com ela apercebeu-se de que esta era hostil e viu-se obrigado a combater com ela e a submete-la através do uso da força e do medo.
No entanto, assim que conseguiu convencer os seus governantes de que não era aliado de Monctezuma e de que estava do lado deles na luta que mantinham contra este líder azteca, passaram recebe-lo de forma mais afável e permitiram a entrada dele na cidade.
Após a narrativa deste episódio de guerra, descreve a cidade de Tlaxcala, o seu quotidiano e os hábitos dos seus habitantes.
A certa altura chegou à cidade uma comitiva de Moctezuma, que lhe deu a entender que o chefe dos Aztecas estava interessado em conhece-lo. Cortez foi invadido por uma certa dúvida, não sabendo se havia de ir, ou não, ao encontro de Moctezuma, uma vez que os Txalcaltecas avisavam “...que no me fiase de aquellos vassalos de Motezuma porque eran traidores y sus cosas sempre las hacían a traición…”16.
Apesar destes avisos Cortez decidiu ir com a comitiva do Rei. Iniciou-se então uma nova jornada que levou o temerário conquistador espanhol através de muitas peripécias, entre as quais uma tentativa de o assassinarem e algumas subjugações de províncias.
O autor da carta dá uma grande ênfase ao encontro que manteve com o líder dos Aztecas, uma vez que se tratava do encontro de dois Mundos. É um dos momentos fulcrais da história da humanidade, visto que é quando se cruza o Mundo Europeu, actual, e o Mundo mais antigo, cuja cultura e cujas tradições são atrasadas face ao mundo moderno.
Após a descrição deste encontro, Cortéz passa a narrar o diálogo que teve com Moctezuma. Neste diálogo, Cortez deu a conhecer ao imperador Azteca as suas intenções e o percurso que havia efectuado até chegar a Tenochtitlan. Por sua vez, Moctezuma tentou limpar a sua imagem face ao que os outros povos podiam ter dito acerca dele e pede  que “… No creáis más de lo que por vuestros ojos veredes…”17.
Após este diálogo, Cortéz inicia uma exposição que visa retractar a cidade de Tenochtitlan, recreando o dia a dia na cidade, os seus hábitos, o seu comércio e o modo como é efectuado, a elite, a forma de se vestirem, quais as principais culturas cultivadas, e a forma como praticam a religião.
Porém, a certa altura foi obrigado a sair da cidade, acompanhado por grande parte das suas tropas, uma vez que Pánfilo de Narváez, enviado de Diego Velázquez, estava a causar distúrbios em Vera Cruz e estava com intenções de guerra. Ocorreu, então, um confronto entre forças espanholas, que opuseram Cortez a Narváez. Este confronto pendeu para o lado de Cortez, o qual com o término do confronto retornou à cidade de Tenochtitlan.
Porém quando aqui chegou, encontrou uma cidade hostil aos espanhóis, muito por culpa da matança do Templo maior, levada a cabo por Pedro de Alvarado, capitão que tinha ficado com a missão de a governar aquando da ausência de Cortés. Só que este não foi capaz de o fazer eficazmente e acabou por ter de eliminar a elite da cidade para tentar restabelecer a ordem entre os Aztecas. Porém, este acontecimento só serviu para os tornar mais revoltosos e mais perigosos, chegando ao ponto de estes matarem o seu governante Moctezuma II.
Perante tal situação os espanhóis, que contavam já com a presença de Cortéz viram-se obrigados a ter de fugir pelas suas vidas, perdendo, assim, grande parte da riqueza e das armas de guerra que consigo tinham.
Após este trágico acontecimento, Cortéz decidiu rumar em direcção a Tlaxcala, onde sabia que poderia tratar dos feridos e enterrar os mortos. Contudo, até chegar a esta cidade, Cortéz viu-se a braços com várias revoltas e teve que as acalmar a todas. Porém havia um grupo de indígenas mais revoltosos16, que alcançaram e obrigaram os Espanhóis, que se encontravam feridos e cansados, a uma batalha, que ficou denominada como a batalha de Otumba. Os Espanhóis sairam vitoriosos desta batalha, e assim puderam chegar, finalmente, a Tlaxcala.
Após chegarem a esta cidade, foi então iniciada uma campanha para subjugar outras aldeias nas redondezas desta grande cidade. Foi nesta altura que se criou a cidade de Segura de la Frontera e que se fizeram as campanhas pelo rio de Pánuco.
Para finalizar esta segunda carta de relação, Cortez começa por reconhecer algumas semelhanças entre o, actual, México e o reino de Espanha, semelhanças estas evidenciadas a nível do clima, de grandeza, da paisagem, da riqueza da fauna e flora, bem como de uma grande fertilidade dos terrenos. Perante tais semelhanças, Cortez decide apelidar esta terra de Nueva España e pede que assim comece a ser denominada. Além disso, afirma que escreverá sobre tudo o que achar pertinente e pede que o Rei dê credibilidade áquilo que ele escreve.